“Reencontro delicado”: entrevista com os diretores de Quarto Camarim para o jornal A Tarde.

Reencontro delicado – Por João Paulo Barreto.

Com uma vasta experiência na direção de curtas metragens, sendo o mais recente deles, Muros (2015) premiado no Feciba – Festival de Cinema da Bahia e no Kinoforum – Festival Internacional de Curtas Metragens de SP, a dupla de cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos traz para Quarto Camarim, seu primeiro longa, uma delicada construção de personagem. Trata-se do reencontro entre sobrinha e tia, após vinte e sete anos sem qualquer contato. A sobrinha em questão, a própria Camele, junto ao co-diretor e roteirista Fabricio Ramos, apresentam para o espectador a figura de Luma Kalil, uma independente comerciante, dona de um salão de beleza que é, também, travesti e artista performática. Neste reencontro, os laços que ambas possuem são refeitos através de lembranças e olhares adiante. Trata-se não de um inflamar de velhas feridas familiares, mas de um belo retrato da aceitação e do respeito pelo outro.

No filme, contemplado no programa Rumos Itaú Cultural 2015-2016, a construção da figura de Luma para o espectador é feita de forma gradativa. Nós a conhecemos através de sua força, do modo como sua autoafirmação foi condição principal para que ela conseguisse se impor diante de qualquer violência física ou mental. O que vemos ao final é o equilíbrio de uma mulher segura de si. Nesta entrevista, Camele e Fabricio falam um pouco dessa construção fílmica que resultou em Quarto Camarim.

O filme será exibido amanhã, na Sala de Arte da UFBA, às 19h, com entrada franca. A sessão tem organização da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e contará com debate mediado pelo professor da UFBA, Djalma Thüler, que coordena o Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade, com a participação da protagonista e dos realizadores.

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Luma Kalil em cena de Quarto Camarim

Camele, há um impacto emocional marcante no modo como o seu reencontro com Luma, sua tia, é gradativamente construído para o espectador. Como foi lidar com isso sem deixar que esse mesmo impacto emotivo viesse por qualquer razão prejudicar a construção do seu filme?

CAMELE – De fato, o impacto emocional marca a nossa aproximação. Mas, durante todo o tempo em que pensávamos Quarto Camarim, esse impacto emocional constituía a própria substância do filme. Por isso a minha decisão delicada de filmar já a aproximação, e não de tentar me aproximar de minha tia para depois construir um filme. Essa escolha me trouxe exigências. Durante todas as fases do processo, em muitas situações, era necessário dar tempo para deixar as emoções decantarem, em outras, era preciso valorizar justamente o calor do momento. Não só durante as filmagens, em que as decisões de ligar ou desligar a câmera, ou de propor à Luma uma cena mais ou menos construída, tinham que ser pensadas tanto no nível de minha relação com minha tia, quanto no da construção fílmica. Mas também no processo de montagem, durante o qual a distância de Luma era apenas geográfica, mas nossa relação continuava frequente, trazendo novos impactos emocionais, enquanto eu tinha que retomar as experiências vividas e registradas por nós, buscando dar a elas um sentido capaz de compor a estrutura do filme. Nesse sentido é que o impacto emocional de nossa aproximação constitui a própria substância do filme.

Neste mesmo aspecto citado anteriormente, Quarto Camarim acerta no tom dos depoimentos de Luma sem ceder para o piegas, para as lágrimas ou para qualquer maneira de manipular o espectador dentro da emoção. E este poderia ser um risco, uma vez que os diálogos do filme são inseridos de forma natural. Como vocês trabalharam esse risco?  

FABRICIO – Sabíamos do risco o tempo todo. Em sua forma, o filme insinua esses riscos, próprios de uma abordagem documental que marca o nosso estilo e cujo tema é a relação entre duas sensibilidades que se encontram com todas as suas diferenças, mas ligadas por laços familiares e contextos complexos. Em sua narrativa, entretanto, os riscos são mais do que insinuados: certas lacunas narrativas e algumas soluções estéticas que utilizamos resultam do desafio de converter o inevitável impacto emocional que o filme traz em si mesmo, em um outro tipo de impacto no espectador, que não substituísse o lugar do impacto emocional, mas que, junto a ele, estimulasse uma relação incomum do espectador com o filme, que lhe falasse mais alto no nível da sensibilidade e da reflexão, mas sem abrir mão da emoção.

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A co-diretora Camele Queiroz em cena com Luma Kalil

Camele e Fabricio, na construção do roteiro, percebemos uma casualidade do encontro, mas, do mesmo modo, o aspecto documental planejado se faz presente. Principalmente na cena em que Camele conversa com Luma no quarto, sobre a forma como o filme foi imaginado. De que modo vocês buscaram esse equilíbrio entre o improviso e as cenas pensadas para o roteiro?

FABRICIO – Uma dupla noção conduziu o modo como buscamos equilibrar as cenas pensadas e aquelas que resultavam do instante e do improviso: a nossa noção do que é cinema e, em relação com ela, a nossa ideia de política. Ao mesmo tempo em que lidávamos com a nossa percepção do teor dramático de Quarto Camarim, que vem das tensões da relação entre tia e diretora, tínhamos que lidar com a carga política inerente ao tema do filme, que vem do fato de Luma ser travesti. A forma como pensamos o cinema que fazemos orientou a busca desse equilíbrio entre cenas pensadas e improvisadas. O cinema pode ser muita coisa, há vários cinemas, mas mantemos viva sempre essa visão do cinema como arte, mesmo filmando sob um método predominantemente documental. Essa visão remete à, para nós, desimportante controvérsia em torno da relação entre o que é documentário e o que é ficção no cinema, ou entre arte e entretenimento. Talvez tenha sido Riccioto Canudo, lá em 1911, um dos primeiros teóricos a defender a condição de arte do cinema, dizendo que “no cinema, a arte consiste em sugerir emoções e não em relatar fatos”. Em Quarto Camarim, que começa com uma cena pensada na qual se ouve um poema, buscamos subverter isso e sustentar uma visão “poética” (dramática) dos próprios acontecimentos com os quais nos deparamos. Porque, para nós, não basta reproduzir através das imagens o que vimos ou vivemos no “real”, mas buscamos expressar algo sobre a vida a partir de nossa própria visão da vida, de nossa ideia do que é arte e do que é cinema, e de nossas visões de mundo políticas, éticas. Pela mesma razão, evitamos construir discursos mesmo quando abordamos temas eminentemente políticos. Mesmo que os discursos estejam lá de alguma forma, o nosso esforço é o de atingir, em algum grau, a sensibilidade de quem vê o filme. Claro que há uma boa dose de risco nisso. Esse risco participa do desafio que nos anima a fazer um filme como “Quarto Camarim”, mas, em nosso trabalho, nós temos sempre em mente uma conjunção que se resume em duas palavras: simplicidade e sensibilidade.

Camele, Quarto Camarim trata de uma história extremamente pessoal para você e sua família. Houve em algum momento qualquer insegurança em revisitar fatos que poderiam abrir velhas feridas para você e sua família?

Do meu ponto de vista como diretora pessoalmente envolvida na história, percebo mais o desafio diante da incerteza da vida, do que o sentimento de insegurança diante dos desafios. Agora, claro que eu tinha plena noção de que eu estava mexendo com o passado de minha família e, eventualmente, provocando um novo presente nas relações, que eu não podia saber como seria. Tendo em vista, por exemplo, o fato de Luma ser travesti, isso não nos induz a certas conclusões sobre as razões do rompimento entre ela e meu pai? Diante das histórias que me contam, de ambos os lados, as coisas não são tão simples. Aliás, eu mesma não sabia direito as razões de meu pai ter se afastado de Luma, visto que foram amigos, até mesmo quando Luma já fazia shows, e de repente romperam definitivamente quando eu ainda era criança. Quando decidi procurar Luma, ainda sem ter o projeto de fazer disso um filme, resolvi assumir a minha responsabilidade e propor que meu pai assumisse a dele, e que Luma assumisse a dela. Quando me veio a ideia de transformar a busca e o possível encontro em um filme, ambos, afinal, toparam participar dele. Quarto Camarim, como filme, está aí, mas a vida e as relações continuam. As inseguranças também, as minhas e, talvez, as deles.

A trajetória que Luma teve, passando por diversas cidades, reconstruindo a própria vida do zero diversas vezes, falando acerca dos atritos familiares e descrevendo sua coragem de modo preciso quando usa o fato de ter “colocado peito” e a ação de sair na rua após isso como definidor de sua força interior. Diversas falas e momentos salientam o pulso forte que essa mulher possui. No roteiro, como vocês procuraram construir a força dessa personagem para o espectador?

FABRICIO – A força da personagem vem da própria Luma e nós buscamos valorizar isso no filme. Em termos de roteiro, o maior desafio foi incorporar ao filme as hesitações e tensões de uma relação frágil que se iniciava e que tinha o agravante da distância geográfica. À medida que fomos construindo o filme, era mais a força de Luma que nos fazia pensar e repensar o roteiro, do que nós pensando num roteiro que valorizasse a força de Luma.

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Luma Kalil em cena de Quarto Camarim

Essa força de Luma, inclusive, é colocada em evidência logo em seus primeiros depoimentos e conversas com Camele. Isso depois de a conhecermos somente pela voz e pela insegurança em não querer participar do filme. Quando a vemos entrar em seu próprio salão de beleza ou cantar em sua performance, é como se o filme confirmasse tal força. Acabou sendo algo que o acaso ajudou a construir, uma vez que vocês não imaginavam essa desistência e volta dela ao projeto.  Em que momento vocês perceberam que essa construção narrativa relacionada ao mostrar da força da protagonista teria tamanha eficiência?

CAMELE – Isso tem a ver com a forma como nós fazemos nossos filmes, que lidam com aspectos da vida e personagens reais. Claro que Quarto Camarim foi especial: por eu ser diretora e ao mesmo tempo viver a história, pude sentir na pele a intensidade do drama quando, por exemplo, Luma desistiu do filme. Por um momento nós nos vimos diante do ingrato desafio de fazermos um filme não mais sobre o encontro, mas sobre um desencontro. De repente, por razões dela mesma, Luma retorna ao filme. Diante da hesitação de Luma, que mostra sempre um caráter autônomo, e da reviravolta, nós percebemos que a nossa relação com ela já vinha sendo efetivamente mediada pelo próprio filme, ainda que isso não fosse o planejado. Essa mediação da relação pelo filmeacabou se impondo como parte constitutiva da narrativa.

Ao inserir o depoimento de um dos irmãos de Luma, e a forma como ele parece se preocupar com o que vai dizer, em contraste com o pulso firme das falas da protagonista, há uma percepção do espectador para a segurança que aquela mulher possui. Do mesmo modo, sua preocupação com a própria mãe, em paralelo à fragilidade que vemos da idosa. Quarto Camarim possui diversas rimas temáticas neste sentido, que nos ajudam a perceber quem é Luma. Vocês podem falar um pouco dessas opções de construção temática?

CAMELE – Eu mesma, enquanto sobrinha de Luma, fui descobrindo-a aos poucos e, ao mesmo tempo, já enquanto diretora, comecei a pensar, junto com Fabricio, em como mostrar isso no filme. Daí começamos a definir, especialmente no processo de montagem, soluções narrativas e estéticas que transmitissem ou, pelo menos, sugerissem no filme essa experiência de desbravamento, tanto da vida quanto do próprio cinema.

Há uma imprescindível discussão que o filme traz quando aborda diferenças de classes, preconceito em relação a questões de gênero e liberdade de expressão, e isso sem ser panfletário, inserindo tais mensagens de modo poderoso nas falas de Luma, principalmente quando esta fala dos momentos de fúria que teve com os irmãos. Como se deu a abordagem desses temas na concepção do roteiro e no alcance do resultado final?

FABRICIO –  Quarto Camarim mostra um reencontro entre duas sensibilidades, de diferentes gerações e histórias de vida. O fato de Luma ser travesti traz à tona essas dimensões sociais e políticas complexas no campo da sexualidade, das diferenças de classe, dos afetos familiares, do preconceito violento e de questões de gênero. Mas a abordagem escolhida por nós, que se situa no limite das relações entre estética e política, propõe ao espectador uma experiência cujo sentido e importância ele mesmo deverá procurar. Preferimos não estabelecer de antemão ou julgar a importância que o tema do filme evoca. Mas temos consciência de que, por um lado, a força dramática do filme reside no fato de Luma ser travesti e ser minha tia, mas por outro, essa força vem também da expressão pessoal de minhas inquietações e das escolhas formais às quais nós recorremos para expressá-las, nublando as fronteiras entre a vida e a arte, entre o documentário e a ficção, entre o fato e a memória. São os impactos na sensibilidade que, historicamente, transformam as bases da sociedade, seus valores, suas verdades, para quem sabe, trilharmos o caminho de um mundo menos violento e mais aberto às diferenças. Todas as nossas escolhas formais, narrativas e estéticas, buscaram dirimir os discursos e valorizar as vivências das próprias personagens. Tudo isso reunido constrói um filme que só pode ser importante na medida em que ele possa causar no espectador uma intensidade de sentimento aliada a uma vontade de reflexão.

Entrevista publicada originalmente em A Tarde, no Caderno 2 da edição impressa do dia 26/03/2018.

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