Entrevista com Camele Queiroz, diretora de “Quarto Camarim”

Poster Quarto Camarim

Camele Queiroz, diretora de Quarto Camarim, comenta as vivências e o processo de fazer o filme.  A entrevista foi concedida em março de 2017 à jornalista Patrícia Colombo, do Blog Rumos – Itaú Cultural e originou a nota publicada no site do Itaú Cultural em 19/7/2017. Leia a entrevista completa:

Patrícia: Como surgiu a ideia de produzir o filme? Gerou um conflito familiar?

Camele: Sempre tive cabelo comprido e decidi cortá-lo bem curto, por razões minhas, o que foi uma decisão difícil. Creio que enquanto cortava o cabelo a lembrança de meu tio me veio à mente e lembrei também do quarto que ficava com a porta sempre fechada, exceto por uma brecha por onde eu o olhava, às escondidas, movida pela curiosidade infantil. Esse quarto se assemelhava muito a um camarim. Eu via um espelho, via muitos objetos sobre a penteadeira, muitos sapatos coloridos e perucas. Não estou bem certa do momento em que a lembrança me ocorreu, nem das razões disso. O fato é que pensei na possibilidade de reencontrá-la antes de pensar em fazer o filme. De repente me ocorreu o quanto meu tio Roniel, irmão de meu pai, era distante de meu círculo familiar. Eu sabia que ele era travesti e comecei a imaginar as tensões que rondavam toda essa história e que eu nem sequer conhecia. A única coisa que eu sabia era que meu tio Roniel e meu pai tinham rompido a relação há muitos anos atrás, mas não tinha detalhes. Imaginei mil coisas que é difícil descrever, mas senti vontade de reencontrá-lo. No fundo eu sentia que eu, individualmente, não participava desse rompimento. Se inicialmente não pensei logo em fazer um filme, comecei a pensar de que maneira eu poderia me aproximar de Roniel, que então, eu soube, já se chamava Luma. Enxerguei, num possível reencontro, seja como fosse, toda uma potência que poderia compor um filme. Para mim, fazer um filme seria um desafio ainda maior, mas também poderia estimular um reencontro que ultrapassasse as relações entre uma sobrinha e uma tia. Até hesitei em propor a Luma fazermos um filme, temendo que ela visse nisso algo que fizesse parecer que nosso reencontro, por si só, não bastaria. Mas confiei que eu podia sensibilizá-la do que eu pensava: que o cinema que eu faço é também uma forma de encontro. Quando comuniquei a familiares próximos a minha intenção de procurar por Luma, isso não gerou um conflito, mas quase todos me fizeram ressalvas e demonstraram preocupação, exceto minha mãe, que de pronto achou uma ótima ideia. Não sei que mudanças haverá, ou se já houve alguma, ao longo desse processo de fazer o filme, ou então depois do filme passar a existir.

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 P: Houve algum reencontro do seu pai com ela?

C: Por enquanto, não. Apresentei a meu pai um primeiro corte do filme, até porque ele aparece no longa. No início, quando ainda estávamos filmando, ele resistia em ver algumas fotografias que eu tirava junto com Luma, em nossos encontros em São Paulo. Mas o fato é que, quando meu pai viu o primeiro corte, saiu da sessão visivelmente emocionado. Demonstrou estar feliz de eu estar fazendo aquilo.

P: Como foi a primeira conversa por telefone?

C: Foi tensa. Eu não sabia como Luma iria reagir à minha procura depois de vinte e sete anos e ao mesmo tempo sabia que havia uma situação de rompimento de relação com hostilidades entre ela e o meu pai. Quando fiz essa primeira ligação o filme só existia enquanto ideia, uma mera possibilidade, mas não tínhamos nenhum meio para realizá-lo, mas mesmo assim achei importante ter o registro desse momento já que ele poderia ser definidor, caso o filme viesse a existir.

P: Qual será a abordagem e o formato do filme e em que fase está? Quanta pessoas na equipe?

C: O filme é um longa metragem que está em fase de finalização e que deverá ser concluído em maio. A abordagem se baseia no que chamamos de método documental, que escapa à delimitação de gênero. Trata-se de filmar a vida, explorando, através das imagens, o rastro empírico de nossas experiências no mundo, de forma receptiva a influências tanto de ficções quanto de obras documentais. Uma abordagem que, transformando as possibilidades do que encontramos, nos permitiu concretizar uma obra que reflete a arte do real. Nas locações, a equipe do filme era composta por quatro pessoas, uma equipe enxuta por exigência de nossa proposta de produção, com fins de ter um ambiente simples nas filmagens, que reduzisse, na medida do possível, a interferência no cotidiano da casa de Luma e nas outras locações. Em algumas situações eventuais de produção foi necessária a contratação de assistentes e colaboradores. E na parte administrativa tivemos a parceria com a empresa produtora Multi Planejamento, de Salvador.

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P: Qual a data de lançamento?

C: O filme está em fase de finalização e a partir de junho faremos todo o esforço para que o filme seja visto, buscando os circuitos próprios do cinema e, se possível, realizar um lançamento. Não mediremos esforços para isso, claro.

P: Luma é travesti ou transgênero?

C: Luma se identifica como travesti.

P: Presenciou momentos de discriminação durante seu tempo com ela?

C: Não. Tenho consciência de que Luma enfrentou muitas coisas, muitos preconceitos, não só pelo que ela me contou, mas porque qualquer travesti certamente enfrenta, afinal, conhecemos o mundo em que vivemos. Mas, em nossos encontros, Luma se mostrou  muito altiva, o que é um traço de sua personalidade, e nos dias em que estivemos juntas, inclusive em lugares públicos, eu percebia nela o seu esforço para se ver respeitada aonde fosse, e ela conseguia. Mas se eu percebia tal esforço, é porque ela estava consciente dos riscos que corre, e os corre, infelizmente, somente pelo fato de ela ser travesti.

P: O que aprendeu sobre ser mulher com a Luma?

C: Foi um aprendizado sobre a vida mesma, da perspectiva do encontro entre duas mulheres. A maneira como Luma encara a vida é estimulante, sustentando sempre uma atitude afirmativa. Ela é muito firme e destemida diante de todas as situações, especialmente daquelas que fazem exigências mais duras. Para além do que está no filme, no período de nosso encontro, vi Luma enfrentar dificuldades reais que, inclusive, quase comprometeram a existência do filme. Mas, demonstrando muita força, ela decidiu participar. Isso porque Luma conjuga essa atitude firme com uma doçura encantadora.

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P: O que aprendeu sobre a vida dela que te surpreendeu?

C: Percebi a complexidade afetiva de suas relações. Por exemplo, Luma demonstra um forte senso de família, embora viva afastada de todos os parentes. Especialmente com relação à sua mãe, minha avó Aurora, que ela não vê há vários anos, mas a situa sempre como uma das pessoas mais importantes da sua vida. Percebi, no meu convívio com Luma, que as relações familiares dela, talvez por conta da sua condição e história de vida, se dão em níveis afetivos muito diferentes, com noções de ausência e presença, memória e história, muito próprias. Luma conta que foi, se não a primeira, uma das primeiras travestis a usar saia nas ruas de Feira de Santana, uma cidade do sertão da Bahia, árida em vários sentidos, geográficos e simbólicos, mas mesmo assim, uma cidade que teve momentos culturais marcantes, especialmente no campo da poesia e mesmo do cinema, visto que lá nasceu, viveu e filmou o cineasta Olney São Paulo, por exemplo. Metaforicamente, vejo Luma reunir a resistência a essa aridez com a vivacidade que marca a cidade em que ela nasceu e cresceu.

P: Quais as dificuldades técnicas de tocar um projeto como esse? Quanto tempo pretende permanecer em SP?

C: Primeiro foi ver que o projeto que elaboramos para ser um curta-metragem exigiu se tornar um longa. Não seria possível, diante da experiência do encontro, expressar o que eu queria da forma que eu achava necessária, num filme de curta duração. Diante disso, enquanto eu vivia toda a tensão e expectativa do encontro com Luma para as filmagens, tinha que pensar também na melhor configuração técnica que tornasse viável a produção, tanto no sentido de recursos quanto no sentido de eficácia formal. Afinal, a proposta expressiva que eu buscava não comportava uma estrutura “industrial”. Eu precisava me aproximar de Luma, planejava filmagens em sua casa, previa momentos de conversas mais privativas. Então, as dificuldades técnicas de transformar um projeto de curta em longa foram um tanto dirimidas pelas exigências formais e estéticas que eu buscava para o filme, que implicavam em uma estrutura técnica enxuta e diferenciada. Claro que, nessa proposta, que chamamos de método documental, um método que – embora dirigido e pensado – se relaciona com as possibilidades, é um cinema do possível cujas cenas se apresentam tal como se apresenta a própria vida. Isso implica em exigências técnicas e logísticas peculiares, às vezes imprevistas e improvisadas. Por exemplo, tivemos que viajar a São Paulo mais vezes do que o previsto, e nossa equipe era de Salvador, com exceção do produtor de campo, André Silvestre. Em suma, as dificuldades técnicas eram mais ligadas às exigências especiais do próprio filme em relação com a proposta estética que eu buscava, do que às dificuldades de produção típicas na realização de um filme de baixo orçamento.

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P: Queria que você me falasse um pouco sobre seu envolvimento emocional com o tema e sobre como não deixar isso interferir na produção.

C: Eu queria muito conseguir responder a essa pergunta de forma clara, mas não tenho essa resposta ainda. Aliás, desde o início, eu sentia que o meu envolvimento emocional com o tema faria parte do filme, afinal, tratava-se de um encontro com uma tia que eu não via desde a infância e que eu sabia que era travesti, que morava em algum lugar, mas ninguém de minha família próxima sabia dela (meu pai tinha rompido com o “irmão” há muito tempo). Quando comecei a fazer perguntas sobre Luma a alguns familiares, percebi que as histórias eram vagas ou refratárias. Claro que pensei que o fato de Luma ser travesti tinha toda implicação em sua história. Será que eu a teria procurado se ela não fosse travesti? É uma questão que tento abordar no próprio filme. Entretanto, sempre encarei o meu encontro com Luma como um encontro com uma tia que tinha, em minha cabeça, uma história fascinante, certamente cheia de dificuldades num mundo violentamente preconceituoso, e por isso também cheia de desafios. Senti que eu precisava falar com ela, e mesmo cheia de conflitos internos sobre como concretizar tal encontro, escolhi o cinema como meio de me aproximar dela, porque só através do cinema eu vivenciaria a experiência do encontro abrindo a possibilidade de partilhá-la com outras pessoas, conhecidas e desconhecidas. Uma suspeita que me ocorre é que as impressões de espectadores que porventura me venham falar algo do filme, possam ampliar a compreensão de minha própria experiência, sobre a qual, claro, tenho minhas próprias impressões. Esse é o diferencial de um cinema que se assenta na própria vida, que é o cinema que eu e Fabricio Ramos temos feito. Essas questões estão no filme pairando como uma questão para a qual, como eu disse, não tenho respostas claras.

Nesse sentido a direção conjunta com Fabricio Ramos foi crucial, porque eram nas nossas longas conversas que eu ia refletindo sobre sentimentos e inquietações, que, no esforço de estruturar a história e consciente da dimensão do tema (o fato de Luma ser travesti é fundamental), nós íamos tentando discernir os caminhos para o filme, os dilemas éticos, os potenciais políticos e as possibilidades estéticas que ele oferecia enquanto filme, mesmo eu estando imersa em uma ralação afetiva e emocional que, ali, era impossível separar do próprio filme. Tanto eu quanto Luma, que protagonizamos o encontro, nos mostramos conscientes do processo do filme, e depois vi que é precisamente essa consciência que constitui uma das forças dramáticas do filme “Quarto Camarim”.

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P: Qual a importância, na sua opinião, de um material assim sobre uma personagem como ela na circunstância social que vivemos hoje?

C: O filme “Quarto Camarim” é um filme de encontro, mais precisamente, um filme que mostra um reencontro entre duas sensibilidades, de diferentes gerações e histórias de vida. O fato de Luma ser travesti traz à tona dimensões sociais e políticas complexas no campo da sexualidade, das diferenças de classe, dos afetos familiares, do preconceito violento e de questões de gênero. Mas a abordagem escolhida por nós, que se situa no limite das relações entre estética e política, propõe ao espectador uma experiência cujo sentido e importância ele mesmo deverá procurar. Preferimos não estabelecer de antemão ou julgar a importância que o tema do filme evoca. Mas temos consciência de que, por um lado, a força dramática do filme reside no fato de Luma ser travesti e ser minha tia, mas por outro, essa força vem também da expressão pessoal de minhas inquietações e das escolhas formais às quais eu recorro para expressá-las, nublando as fronteiras entre a vida e a arte, entre o documentário e a ficção, entre o fato e a memória. Pessoalmente, sinto que tudo isso reunido constrói um filme que só pode ser importante na medida em que ele possa causar no espectador uma intensidade de sentimento, uma energia de transformação sensível, que ofereça elementos que, quem sabe, reconfigurem as suas próprias visões de mundo a partir da experiência desse encontro que o filme partilha. O filme me transformou. Talvez tenha transformado também a Luma, em algum aspecto, eu creio firmemente que sim. Nos limites do cinema e da arte, a importância do filme só poderá ser medida por qualquer um que o veja. Um filme assim é mais forte quando atinge as sensibilidades, quando se revela um exercício do olhar e da escuta que transforma, a partir da sua experiência, as experiências dos outros. São os impactos na sensibilidade que, historicamente, transformam as sociedades, seus valores, suas verdades, para quem sabe, trilharmos o caminho de um mundo menos violento e mais aberto às diferenças, às experiências renovadoras, provocadoras de outros olhares sobre o mundo e as pessoas. Espero que o filme reflita, em algum grau, essas vontades.

Assista o trailer:

 

 

 

2 comentários em “Entrevista com Camele Queiroz, diretora de “Quarto Camarim””

  1. Republicou isso em arte_documentoe comentado:

    Entrevista de Camele Queiroz sobre o processo de fazer o filme “Quarto Camarim” (que eu co-dirijo). O filme, que teve o apoio do Rumos – Itaú Cultural, será lançado em breve. A entrevista completa e mais infos sobre o longa podem ser acessados no site do filme.

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